Miguel Torga - Diário XV
Coimbra, 28 de Junho de 1988 - Sim, cantei o amor, a esperança, a liberdade e a poesia. E porfio no canto, apesar do cansaço. Foi essa a minha penitência e a minha glória. Doente, tartamudo, tímido, todo eu parecia condenado ao ceptismo e à renúncia. Havia, contudo, dentro de mim outras forças menos aparentes e mais poderosas que não se resignaram à resignação. Uma alma só vale pelas suas contradições. E a que coube em sorte era um enxame delas. Se muito duvidei, muito confiei. Acossado entre dois fogos, ora me via perdido, ora salvo. Acabou por vencer o poder que mais podia.
E ficou dessa luta titânica um hino à vida. Um hino apaixonado, de que é negativo uma elegia desencantada, que teve motivação, foi consciência dolorosa, teimou em ser ouvida, mas não conseguiu impor a sua voz.

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