domingo, junho 14, 2015

MIGUEL TORGA

Miguel Torga - Diário III
S. Marcos, 14 de Junho de 1944 - Meu Portugal passado! Meu Portugal de servidores sem retórica, deitados serena e honradamente ao fim da vida num túmulo de pedra de Ançã, esculpido por um imaginário de Paio Pires.

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Diário XV
Hong-Kong, 14 de Junho de 1987 - Desforrei-me. A subir e a descer montes como aqui é que eu me entendo. Os arranha-céus ainda me perseguiram por toda a parte, mas a paisagem conseguia engoli-los ou a retina ultrapassá-los. E foi um deslumbramento. Ilhas, leixões, arvoredo e mar entrelaçados. Que mais é necessário para fazer um panorama inolvidável?
Com o capitalismo a olhar dos miradoiros de cimento armado a miséria indígena embarcada num gueto flutuante, em termos humanos, isto não presta. É uma prefiguração dum mundo sem alma, a zumbir em colmeias de muitos andares. Mas que caleidoscópio geográfico? Que visão acordada do sonhado!


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