No Dia Mundial da Poesia lembro quatro poetas
Eugénio de Andrade
In: AS MÃOS E OS FRUTOS - IVSomo como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.
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7-1-1935
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher ?
Não quero a noite sem
não quando a aurora
a fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria ...
Ah, com que esmola a aquecerei ?...
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Florbela Espanca
VAIDADE
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo!E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!
E quando mais no céu em vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada ! ...
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António Salvado
Plantas da Beira
Há sempre uma afeição pelas giestas- luminosa harmonia coroada -
e o alecrim, as ilhas avistadas
de rosmaninho de alfazema estevas.
Rochedos infindáveis e dispersos
filigranas de orégãos dentro de água.
O cheiro do tomilho perfumado,
ali quase carnuda a salsa inerte.
Nada pediram para florescer,
feitos de acaso e vasto colorido
estes humildes inocentes seres
(e a artemísia o endro) a tido unidos

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