sábado, março 21, 2015

DIA MUNDIAL DA POESIA

No Dia Mundial da Poesia lembro quatro poetas


Eugénio de Andrade

In: AS MÃOS E OS FRUTOS - IV

Somo como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.



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Fernando Pessoa

7-1-1935

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher ?

Não quero a noite sem
não quando a aurora
a fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?...  Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria ...
Ah, com que esmola a aquecerei ?...


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Florbela Espanca

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo!E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu em vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada ! ...


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António Salvado

Plantas da Beira

Há sempre uma afeição pelas giestas
- luminosa harmonia coroada -
e o alecrim, as ilhas avistadas
de rosmaninho     de  alfazema     estevas.

Rochedos infindáveis e dispersos
filigranas de orégãos dentro de água.
O cheiro do tomilho perfumado,
ali      quase carnuda      a salsa      inerte.

Nada pediram para florescer,
feitos de acaso e vasto colorido
estes humildes inocentes seres

(e a artemísia     o endro) a tido unidos

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