sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL


No 25 de Abril de 2009


MIGUEL TORGA
DIÁRIO X I I

Coimbra, 25 de Abril de 1974 - Golpe militar. assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto, de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada . . .

Coimbra, 25 de Abril de 1975 - Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo. a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões.
Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promovê-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta da degradação deles.

DIÁRIO X V

Coimbra, 25 de Abril de 1988 - Passeio pelos campos do Mondego, a ver o povo a dar sentido, de enxada na mão, a uma data que outros, à mesma hora, festejavam com a retórica que parasita a História. Só ela, de há muito, martela os ouvidos de Portugal. O suor não tem voz.

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