O filme "a turma" foi nomeado para um Óscar na categoria de melhor filme estrangeiro. Este filme foi sem dúvida para mim um dos melhores filmes senão mesmo o melhor, deste 2008 que nada de bom trouxe. Gostei deste filme porque me disse muito. Porque me identifiquei. Mas há gente que fala melhor sobre isto do que eu e por isso deixou aqui um texto já com uns meses. Recomendo a todos os que não viram o filme que leiam o livro ou que comprem o dvd.
A noss’ A TURMA
O cinema português tem, ao longo da sua história, ignorado olimpicamente o mundo das nossas escolas. As excepções, a existirem, já as esquecemos. Mas se há temática que poderia ser estimulante para os nossos cineastas é certamente a do ensino básico e secundário. Mistérios que já nem o império tece…
Em França, pelo contrário, a tradição de mergulhar
nesse universo tão estimulante que é o dos muros das escolas, está bem vivo e com resultados bem interessantes.
Chegou agora às nossas salas de cinema o filme “ A Turma” de Laurent Cantet que adapta o livro “Entre les murs” do ex-rocker, ex-professor, cofundador de uma revista de filosofia, ex-futebolista, François Bégaudeau. O escritor encarrega-se mesmo de interpretar o papel do professor que, numa turma de um liceu problemático dos arredores de Paris, pretende ensinar a língua materna e os seus meandros tão estranhos a jovens em constante provocação. Já foi dito que se trata de um autêntico combate de boxe e que não há knock-out.
A câmara não nos dá descanso: cola-se aos alunos, todos muito juntos, e também ao professor e vai-nos rarefazendo o ar. Para mim, que também sou professor, colocou-me em muitos minutos o mal estar que já experimentei em algumas aulas. Foi aqui que senti que aquela turma também é minha. Aquele combate também é meu. Porque o professor nunca desiste de ensinar, de formar, de ter uma atitude pedagógica. Mesmo quando, num deslize, perde o pé. E os alunos nunca desistem de o questionar, de o incomodar de o tentar impedir de exercer o seu “métier”, como ele o entende. Mas a mais valia do filme está em que não toma partido por uma das partes: abre ao espectador a janela de uma sala de aula para que ele espreite e veja como ensinar hoje, no século XXI, uma turma multicultural, multirracial, inframotivada é uma tarefa desconhecida para a maioria das pessoas e apresenta -se como desmesurada. E que nos traz, ainda, a realidade francesa que ilumine a nossa? A ideia de que o professor é um ser sempre no limite, à beira de ruir. Se não volta as costas é porque acredita que pode, pelo menos para um aluno, ser um factor de equilíbrio numa sociedade que oscila constantemente.
Por outro, e também, a visão crua de que as sociedades juvenis se complexificam cada vez mais e constroem alunos desenraizados, turbulentos, agressivos e que é com isso que temos que viver.
Inapelavelmente.
Rui Gonçalves, professor.
Percebi agora que este texto trata de outras coisas sem ser do filme. Ainda bem.
Delito à mesa (17)
Há 37 minutos

1 comentário:
O senhor tem razão. E escreve bem!
Enviar um comentário